quinta-feira, junho 29, 2006

PRAGMATISMO: O ATRASO DO FUTEBOL MODERNO

A discussão mais interessante movida pela Copa 2006 gira em torno do futebol prático e moderno que vem sendo jogado. É o futebol de resultados. Poucas equipes têm ousado arriscar alguma coisa nos 64 jogos do Mundial. A maior prova disso é a seleção brasileira, que tem o treinador mais pragmático de todos, Carlos Alberto Parreira. Talvez Parreira seja um dos precursores do futebol pragmático de sucesso. Apesar de já ser praticado pelos alemães, esse tipo de jogo foi motivo do sucesso da seleção tetracampeã nos Estados Unidos, em 1994. Numa das piores finais da história das Copas, Brasil e Itália não ousaram nos 120 minutos disputados. Pior para os italianos, que perderam na loteria dos pênaltis.
O saudosismo na crônica esportiva é o principal tormento do técnico Parreira nos últimos dias. O futebol de resultados apresentado pelo Brasil nessa Copa de nada diferencia das outras seleções classificadas para as quartas-de-final do Mundial. Porém, uma geração tão encantadora, que seria a melhor desde 1982, não vem apresentando espetáculo nenhum. E quem tem se destacado no time são os defensores. É complicado escolher um culpado. A maioria diria que Parreira é o grande responsável por isso. Porém, a história comprova que treinadores como Telê Santana, técnico do Brasil nas Copas de 1982 e 1986, caíram diante de equipes inferiores jogando de forma espetacular e memorável.

Telê (foto) é lembrado com fama de pé-frio até os dias de hoje. Suas seleções marcaram época, mesmo caindo antes da final em 82 e 86. Talvez o saudosismo daquelas seleções seja muito mais intenso que o das seleções campeãs de 94 e 2002. O treinador era conhecido como adepto do futebol arte. Considerado Mestre dos técnicos, ele preferia ver seu time perder jogando bonito a vencer jogando feio. O mais anti-pragmático dos treinadores é o principal exemplo dos saudosistas de 1970. Do outro lado, estão jovens que vivenciaram a mesma Copa de 82, e têm péssimas lembranças dessa data. A tragédia ocorrida na década de 80, impulsionou o questionamento sobre o pragmatismo no futebol.
A Copa de 1990 foi um fiasco para o Brasil. Sebastião Lazaroni foi o mais europeu dos técnicos que o Brasil já teve. Comandado por Dunga, o time não só não brilhou, como afundou diante da Argentina, que jogava bonito e acabou caindo diante da pragmática seleção alemã.
Em 1994, Carlos Alberto Parreira tentou de tudo para montar uma seleção que empolgasse. Porém, o maior talento do time, Raí, não correspondeu às expectativas. Assim, Dunga novamente tornou-se a principal peça do elenco. Com Mazinho e Mauro Silva completando a frota de volantes, o Brasil foi campeão graças ao contra-ataque magistralmente comandado por Romário e Bebeto. Foi o fim de uma fila de 24 anos sem títulos mundiais. Foi a primeira vitória do futebol pragmático brasileiro. E a derrota do futebol.
Em 2002 não foi diferente. Luiz Felipe Scolari sempre teve fama de retranqueiro. E não foi à toa que o Brasil foi campeão do mundo jogando pela primeira vez com 3 zagueiros e 2 volantes. Melhor para os laterais, que apoiaram mais, e para Rivaldo, que teve total liberdade de criação e foi a estrela da Copa.
Já em 2006, fica muito claro que o futebol pragmático é predominantemente adotado por todas as equipes. E é por isso que podemos classificar a atual era futebolística como regressista. O conservadorismo é o carro-chefe do futebol moderno. Não é à toa que o futebol arte, que crescia na África perdeu espaço, e foi tomado por esquemas táticos fracassados de técnicos alemães. A globalização tornou o futebol um produto genuinamente europeu. E a tendência é a maior aproximação dos estilos de jogo, para um futuro padrão, que colocará as equipes de elite em igualdade. E o acaso deve perder espaço em meio a números e ciências exatas que os Deuses do futebol detestariam ver na essência da arte que move milhões de corações no mundo todo.

1 Comments:

At 3:24 PM, Anonymous Peixero Véio said...

Excelente coluna Caio.
Parreira é uma vergonha para o Brasil.

 

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